Explicar como se eu tivesse cinco anos.
Tornar clara uma tecnologia complexa não é reduzi-la: é revelar o seu valor.
Ministry of Information Photo Division (1944) — Imperial War Museums — UK Ministry of Information Second World War Official Collection.
A minha educação académica e o meu percurso profissional fizeram-se nas artes e na comunicação. A ciência é um interesse recente: curiosidade, não conhecimento. Foi essa curiosidade que me levou a um simpósio científico sobre investigação biomédica no espaço. Na plateia estavam investigadores, médicos, estudantes, representantes das agências espaciais.
As apresentações sucederam-se e a minha condição de visitante fez-se sentir: ouvir biomedicina sem o dicionário da ciência é como caminhar numa floresta sem bússola.
Usar a língua universal
Um médico falou de envelhecimento — de como, em microgravidade, o corpo dos astronautas envelhece mais depressa. Em vez de o demonstrar apenas com dados, foi buscar uma imagem do quotidiano: os ossos das pernas só são tão fortes porque nos mantêm de pé. Sem gravidade, dizia (se bem percebi), esses ossos perdem a função para que foram talhados — a mesma perda de força que faz tantos idosos caírem, cá na Terra.
Um médico que explica um diagnóstico nos termos técnicos, um mecânico que descreve a avaria pelo nome das peças. Quem domina um assunto vive lá dentro há anos. Tem o vocabulário e os atalhos — e, com eles, esquece o caminho que fez até ali. Fala como se fala entre pares: com precisão, com detalhe, a começar pelo meio.
Nas áreas que trabalham no limite do conhecimento, essa distância é ainda maior. Medicina, biotecnologia, engenharia, espaço, deep tech — e tantas outras onde cada avanço traz um vocabulário próprio, construído em anos de investigação. Nasce longe de tudo o que já se conhece: é isso que o torna disruptivo, e é isso mesmo que o torna difícil de contar. Quanto mais nova é uma ideia, menos palavras existem para ela.
Vinte anos a trabalhar com as artes e a comunicação ensinaram-me a tornar visível o que existe só em palavras ou no abstrato — uma ideia que ainda não tem forma.
Há outra coisa que sempre me foi natural: ver um assunto inteiro e dividi-lo de formas que interessem a cada um. Num festival literário, a visita de uma contadora de histórias a uma aldeia pode ser contada pelo território que visitou, pela história que escolheu levar, ou por quem estava sentado a ouvi-la. É a mesma visita, contada a partir de três lugares.
Por onde se entra
Com uma ideia complexa é igual: ninguém se apaixona por um manual de instruções. A melhor porta de entrada raramente é a especificação técnica — é o problema que ela resolve, a vida que transforma, ou o momento em que se percebeu que era possível. Quem investe, quem financia, quem tem de decidir raramente começa por aí: precisa primeiro de perceber porque é que aquilo importa, e porque importa agora. O «como funciona por dentro» vem depois, apenas para quem precisa do detalhe.
A comunicação da ideia pode chegar no fim. Mas não é uma camada que se põe por cima e se apresenta, «voilà, chegámos!». Não é um trabalho de traduzir a linguagem técnica, nem de enfeitar: é ler a ideia antes de a dizer, decidir o que é, para quem é e por onde se entra nela. E faz-se melhor com licença para não saber e para perguntar tudo, como fazem as crianças de cinco anos.
Depois, a imagem. Uma boa analogia faz, numa frase, o que dez diapositivos não fazem em vinte minutos — foi o que aquele médico fez com a perda de força do osso. E, por fim, a ordem: explicar é desenhar um percurso, um passo de cada vez, onde cada um se apoia no anterior. Saltar passos é perder pessoas pelo caminho.
Clareza não é o contrário de complexidade. É uma forma de respeito — pela ideia e por quem a ouve.
As ideias mais difíceis de explicar são, muitas vezes, as que mais merecem ser explicadas — e as que mais me cativam.
Margarida Girão
Este texto passou por revisão, estruturação e verificação factual com apoio do Claude (Anthropic). A experiência, a escrita e o argumento são da autora.